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terça-feira, 16 de outubro de 2012

À Conversa Com... Joana Duarte

Acho que ainda não estava escrito em lado nenhum, por isso vou escrevê-lo eu: a Joana é provavelmente a miúda mais activa que a nossa cena hardcore viu na última década de picos. Desde marcar concertos, a fazer zines, gerir distros e editoras e - mais importantemente - marcar sempre presença, ela já fez um pouco de tudo. Para além disso (e de ser cientista!) é uma das pessoas mais doces e dedicadas que eu conheço - dentro e fora do hardcore. Pena que não haja mais como ela - o mundo seria certamente um sítio melhor.


Há bué memórias de "back in the day" que dificilmente irei esquecer (por um motivo ou por outro), uma delas é estar contigo à conversa na Kasa Okupada da Praça de Espanha. Eu tinha sorte, porque morava quase mesmo lá ao lado mas tu, se a memória não me falha, nessa altura não só não vivias em Lisboa (longe de), como ainda não tinhas carro. Como era, há doze anos atrás, ser miúda, não ser de Lisboa, e mesmo assim ainda vir a concertos?

Fogo nem parece que foi assim há tanto tempo e nem acredito que já lá vão 12 anos! É bom relembrar esses tempos! Bom nem sempre os concertos eram só em Lisboa... Haviam alguns concertos em Salvaterra e em Vila Franca. Renewal e Shoal tocaram em Vila Franca, Omited ía muito a Salvaterra, bem como algumas bandas da margem sul, e ir para esses lados era mais fácil, lá ía de boleia com os amigos de samora, o pessoal de nine fingers left, entre outros. Mas pronto, a maior parte dos bons concertos eram em Lisboa e não era nada fácil!

Fazíamos granda ginástica para apanhar o comboio e metro, e principalmente porque muitas vezes com os atrasos dos concertos na Kasa Okupada, aquilo já começava tão tarde, que víamos a primeira banda e tínhamos de bazar a correr para apanhar o último comboio para Vila Franca que era lá pa meia noite! Era uma frustração! Mas pronto lá dava para ir vendo as bandas que adorávamos! Às vezes apanhava boleia com pessoal de Alhandra e depois íamos de taxi para Samora, outras vezes ficava a dormir em casa de amigas em Lisboa...Enfim, esquemas para poder ir ao máximo de concertos possível. Sabes que naquela altura e com aquela idade nada era difícil e estávamos dispostos a tudo!

Sim, isso é verdade. Claro que não haver tanta variedade como há hoje fazia com que as opções fossem muito menores. Ou era aquilo ou não era nada. Tu sempre foste uma miúda muito activa e determinada (pelo menos desde que te conheço), em que altura é que te começaste a dar com as miúdas da Sisterhood e, efectivamente, te juntaste ao grupo?

Bom, na realidade ainda levou algum tempo a conhecer as miúdas da Sisterhood, deixa-me cá fazer contas... Inicialmente ainda lancei duas fanzines minhas que fiz sozinha, a HappyxDays, que só saíram praí 20 cópias que vendi ainda na fase da Kasa Okupada e depois a XunikaX (que era o meu nick do mIRC, lol), 100 cópias que até saíram bem. Se bem me lembro esta última fanzine saiu por volta de 2003, por isso só depois dessa altura é que me juntei à Sisterhood! Até então só me dava com pessoal do Algarve, o pessoal de Pointing Finger e contigo e com o Filipe! Ahaha, bons tempos! Como estava sempre com Pointing Finger, a Duda, a Sofia e a Meg quando vieram falar comigo, disseram que se tinham lembrado de falar "com aquela miúda do algarve"; lá esclareci que não era bem do Algarve. Quando me falaram nisso até fiquei entusiasmada, sentia que era uma maneira de fazer as coisas que gostava e ambicionava fazer, tipo organizar concertos, fazer fanzines, mas com pessoas que partilhavam os meus ideais. Foi uma forma de me divertir e conhecer algumas pessoas que até hoje são minhas grandes amigas!

Claro! Como é que não me lembrei dessas fanzines! Isso por acaso deixa-me curioso em relação a outro assunto: de onde veio a tua motivação para fazeres as fanzines e que tópicos é que te lembras de abordar nelas? Eu acho que as fanzines são uma parte importante da cena e espero, através do blog, fazer com que haja um interesse renovado nelas.

Sim, o vosso blog é uma grande contribuição para o mundo das fanzines cibernéticas no hardcore português e acho que é uma iniciativa de louvar. Quanto a mim e à minha motivação, quando escrevi a primeira fanzine ainda era uma coisa muito verdinha, e saiu-me de uma forma muito natural, escrevi colunas pessoais sobre temas que me incomodavam na altura, alguns ainda muito actuais, como por exemplo as touradas (na altura foi quando foi montes de pessoal que nós conheciamos das manifs ao Prós e Contras), e o texto que escrevi abordou esse mesmo programa, fazendo um paralelismo com as discussões constantes que vivo lá em casa pelo facto de o meu pai ser um ribatejano de gema; teve também uma entrevista a Pointing Finger (por serem meus grandes amigos na altura), e até anedotas parvas a fanzine tinha ahah!

Depois a outra fanzine “XunikaX” surgiu noutro contexto... eu estava fora a estagiar, e escrever uma fanzine mantinha-me como que de alguma forma mais ligada à nossa cena! Escrevi alguns textos mais a título quase de reportagem, sobre a origem do punk e do hardcore, sobre a exploração e discriminação das mulheres nos países árabes e orientais, entre outros. Desta vez tive algumas participações nas colunas, e fiz uma entrevista ao Raycar, e já não sei se foi a Get Lost (o pessoal do Algarve sempre presente, eheh), tinha também reviews de álbuns, playlists, enfim... uma coisa assim mais profissional, mas sempre muito DIY cut & paste style que eu com layouts e coisas mais artísticas sou um granda zero! Depois com a sisterhood as fanzines já saíam assim uma coisa mais bonitinha e mais pensada...

Portanto tu passaste a fazer parte da Sisterhood antes de ires para o estágio (que, estou a supor, foi o de Paris)? Quanto tempo estiveste fora e como é que foi essa experiência? Sentiste falta da cena hardcore portuguesa ou aproveitaste para te integrar com a cena de lá? Que concertos viste?

Hmm, o timing foi diferente: Tive em Paris sim durante uns sete meses, espalhados entre 2003, 2004 e 2005. Portanto 2003 foi quando lancei a minha fanzine xunikax quando ainda não fazia parte da Sisterhood. Entretanto fui "recrutada" algures entre 2003 e 2004 penso! Nunca deu para sentir muitas saudades da cena de Portugal, porque o tempo que lá tive foi relativamente curto e muito distribuído, por isso ia dando para matar saudades de cá! Mesmo assim lembro-me que nessa altura em Lisboa haviam concertos com alguma frequência e lembro-me de ter ficado triste de falhar alguns concertos!
De qualquer forma ainda deu para ver alguns concertos em Paris mas nunca deu para me integrar muito bem na cena Parisiense. Aquilo lá era assim meio estranho, não havia concertos assim com tanta frequência, a cena new school era totalmente à parte e muito misturada com cenas freaks emo e a cena old school deles era assim meio misturada com a cena hip hop.. não me identificava muito com as pessoas e não interagi muito, ia sozinha e saía sozinha. Ainda fui ver Born From Pain com No Turning Back, quase na mesma altura em que tocaram também no Campo Grande, ao qual também fui!

Em 2004 fui a um reunion show de Good Clean Fun ("2004 reunion tour go!" como diz a letra, e assim foi) que por acaso acabou por não acontecer porque a bófia acabou com o concerto antes mesmo dele começar! Mas foi giro na mesma tivemos lá todos na conversa com o Issa, e depois eles ainda venderam algum merch! Foi também nessa altura que tive a tua visita, do Congas e do Pedro. Depois em 2005 não consegui apanhar mesmo nenhum concerto, mas também o tempo passou rápido! Adorei Paris! Nessa fase, em que fui chamada para a Sisterhood até foi bom, porque andava meio desanimada com uma distribuidora que tinha formado com o pessoal de Samora, e tinha dado granda buraco o nosso lançamento... e a Sisterhood veio dar-me alento e motivação para me continuar a dedicar à cena em Portugal!


Lembro-me dessa distribuidora! Até me lembro de um cliente que te pediu para guardares um disco praí durante... dois ou três anos! Que vergonha! Também me lembro de um concerto que organizaste com uma série de bandas (que, infelizmente, não correu muito bem) aí para os teus lados. É possível que sejas a miúda do hardcore mais activa de sempre na cena portuguesa, tens noção disso? Fala-me um pouco mais desse disco que lançaste e da distribuidora e dos concertos que marcaram. Tudo isto aconteceu enquanto estudavas, certo?

Ahah, André acho que estás a exagerar... nunca tive uma banda! Faltava me isso! Mas bom vamos lá por partes: essa distribuidora, a Hard To Break, durou pouco tempo, falimos rapidamente por causa do nosso primeiro lançamento, que na realidade era para ser Reconcile da Argentina, que eu adorava ter lançado, mas metemo-nos a lançar No More Fear de Itália (que acabaram logo depois do lançamento), porque já estava tudo mais ou menos tratado e era a meias com a Fields of Hope da Alemanha - mas quer-me parecer que nós pagámos o lançamento todo. Isso deixou me um bocado triste na altura e organizámos o Hard To Break Fest para recuperar o dinheiro (esse tal festival em Vila Franca que mencionaste). O festival foi com Omited Grass Reaction, New Winds, Pointing Finger, Get Lost, The Punchskulls e Over The Kitchen Table. Foram tipo 80 pessoas, mas numa sala em que cabiam 500... Fiquei desanimada, mas tenho a noção que a maioria das pessoas que apareceram em Vila Franca foi para me ajudar, e isso foi muito bom - sentir o apoio dos amigos. As bandas também tiveram grande atitude, era tudo pessoal com quem eu me dava muito bem e facilitaram-me a vida! Enfim, hardcore é hardcore.

Bem, nessa altura o David e o Valter do Algarve convidaram-me para me juntar à Take The Risk e as coisas encaminharam-se e até tivemos lançamentos muito bons: o split de Another Year com Death Is Not Glamorous, Rat attack, Broken Distance, e Reality Slap (o último lançamento da Take The Risk)! Foi uma fase muito boa da minha vida, ir em tour com Pointing Finger e Broken Distance, ficar na banca da Take the Risk, ver bandas que eu adorava, dormir na casa de novos amigos por toda a Europa, fazer quilómetros de uma ponta a outra da Alemanha a conduzir a carrinha com o pessoal a dizer merda lá atrás! Saudades...! Mas voltando atrás, sobre a Hard to Break não há muito a dizer, durou praí 2 anos essa distribuidora, depois juntei-me à Take The Risk em 2005 e aí sim foi a sério! Aliás a o disco a que te referes, suspeito que ainda está lá de parte para ti! Ahah!

Marcámos imensos concertos, principalmente no Algarve, claro que o David e o Valter quando era lá em baixo é que se mexiam pa fazer as cenas, eu ia lá ter ao fim de semana pa ajudar! Fizemos Go it Alone, Colligere, Allegiance... sei lá! Também fiz alguns concertos em Lisboa, mas não era só com a Take The Risk. Posso enumerar alguns que me venham à cabeça... organizei muitos com o Raycar (Cinder e Dick Cheney em Setúbal) e com a Sisterhood (o de Death Is Not Glamorous, ou o último de Pointing Finger em Lisboa, por exemplo), ou com a JustxDuet, que era eu e a Sofia (Fired Up e True Colors, que foi um granda concerto), ou até com o Rafa (o de The First Step em Linda-a-Velha).
Tudo isto aconteceu mais no final do meu curso, apanhou o estágio e a fase em que comecei a trabalhar! Mas era algo que sempre me deu imenso prazer, e apesar do meu trabalho exigir muito a nível intelectual e de tempo, sempre consegui arranjar tempo para o que me dava mais gozo! Entre umas coisas e outras imprimia uns cartazes, mandava emails pa fazer umas trocas da distro, ou ia à gráfica tratar das fanzines... também pus amigas minhas a cortar bilhetes e flyers, enfim quem me conhecia já sabia que eu andava sempre atarefada com essas coisas. Hoje em dia ainda tenho amigos meus que me perguntam: Então e os Nine Fingers Left? E os Fight For Change? E os Pointing Finger? Ahah!

Pois, a miúda mais activa da cena...! Eu sabia. Com ou sem banda. O que eu acho curioso é que tanto eu como tu, como outro monte de miúdos daquela altura, sempre arranjámos tempo para fazer as coisas e para apoiar - por cima do quer que fosse que nos ocupasse. Hoje em dia (embora não seja um problema de agora) noto que se dá menos valor ao "fazer" e ao "apreciar o que foi feito" - duas coisas fundamentais numa cena underground independente. Achas que a internet, de certa forma, adormeceu a vontade das pessoas com o fácil acesso ao mp3, aos vídeos em HD no YouTube e ao eBay? Achas que a cena está a ficar mais plástica, com miúdos mais plásticos - que, claramente, não percebem que são a engrenagem da nossa cultura? 

Bom, não gosto de dramatizar... a internet tem vantagens e desvantagens. Talvez a facilidade de acesso a tudo e mais alguma coisa, sacar o som e ver vídeos de todas as bandas e mais algumas acaba por desvalorizar um pouco aquilo que temos mais perto, porque as pessoas não sentem tanto a necessidade de ir aos concertos para adquirir demos e vinil a partir das distribuidoras, ou porque depois vemos as fotos e os vídeos do concerto na net. Da mesma forma acabamos por desvalorizar ou apoiar menos as bandas que nos rodeiam, porque o acesso às bandas de fora é igualmente imediato. Dantes havia aquela urgência de ir ao primeiro concerto das bandas comprar as demos, para ficarmos a conhecer as letras, e cantarmos tudo de uma ponta a outra no próximo concerto. Hoje a variedade que a internet nos oferece é tanta que aqueles que estão mais perto ficam para segundo ou terceiro plano. Por outro lado, claro que a internet tem muito de positivo, a facilidade de divulgação de concertos, álbuns, e desses mesmos mp3 que facilitam o conhecimento daquilo que é nosso lá fora de forma mais rápida.

Mas sem dúvida que o contacto directo com as bandas, e aquilo que elas lançam é essencial para manter vivo este espírito. O enviar de uma carta com uma mixtape para um amigo da Argentina com as bandas de cá, exigia mais esforço e tempo, mas era genuíno e envolvia uma paixão que hoje em dia já dificilmente se encontra alguém com paciência e disponibilidade para tal. Não posso falar muito porque de certa forma também me afastei mais das organizações de concertos, embora ainda vá fazendo umas coisas quando me apetece (por exemplo a Citylights), mas a minha disponibilidade e vontade de enterrar dinheiro em determinados projectos também já é mais limitada, e penso que é altura de outros irem assumindo esse lugar, já que este devia ser de certa forma rotativo. Admiro a vontade e dedicação daqueles dessa mesma altura que continuam a organizar e a fazer tudo e mais alguma coisa para manter isto de pé... é de louvar! Sei também que há muitos miúdos novos com vontade de se mexer, é como em tudo, há sempre aqueles que fazem tudo e os que não fazem nada é preciso é reconhecer isso e continuar a apoiar quem se mexe.

Joaninha, não te roubo mais tempo! Obrigado pela disponibilidade e espero que continuemos cá por muito mais anos - os que temos já ninguém nos rouba. Antes de me atirar para a edição da entrevista nos confins escuros do nosso HQ, fala-me só um pouco da City Lights (para quem não sabe o que é), onde pode ser adquirida (se ainda estiver disponível) e do teu gigante amor pelo Benfica - algo que eu obviamente não ia deixar passar em branco nesta conversa!

Ora essa Andrezito, é sempre bom conversar contigo! Obrigada eu por me teres em tal consideração de me pôr numa entrevista do teu blog. Foi bom relembrar os velhos tempos!

Ok, então vamos à Citylights! É uma fanzine que surgiu da minha necessidade e da Sofia, de estarmos juntas a fazer este tipo de coisas que adoramos. No entanto, como a nossa disponibilidade é mais limitada actualmente, os números não saem com nenhuma regularidade específica. Vão saindo dependendo do tempo que temos para nos juntar e dedicar à zine! Este é um projecto como tantos outros, sobre hardcore, e por vezes com outros temas associados, de coisas que gostamos de fazer.
Normalmente, há quatro rúbricas fixas o "Ganha Pão", que geralmente é algum amigo, alguém do hardcore, a falar da sua vida profissional e paralela; uma entrevista a alguém ou algum projecto que apoie o hardcore (4TheKids no #2 e Juicy Records no #1), uma entrevista a uma banda (No Good Reason no #1 e Critical Point no #2), e uma entrevista a alguém do antigamente (Mano Pedro no #1 e Zevimetal no #2). A partir daí todos os restantes conteúdos vão variando! Reviews de festivais, textos pessoais, contribuições de amigos e de quem quiser! O último número foi mais dedicado à bicicleta que é um tema que tem movido (literalmente, ahah) muita gente em Lisboa, e tem artigos sobre a Roda Gira, a Matilha Cycle Crew e a Camisola Amarela! That's it! Ainda temos alguns números do #2, que podem encomendar através do Facebook da citylights (http://www.facebook.com/citylights.fanzine), por email para citylights.fanzine@gmail.com ou comprar num concerto por aí! Aos interessados, a fanzine #1 pode ser lida online aqui.

Bom finalmente, quanto à minha grande paixão pelo Benfica, essa está no sangue desde pequenina! Sempre fui aos jogos com o meu pai, no tempo do Magnusson e do Schwartz, e do Valdo e do Isaías! Cheguei a chorar quando perdíamos... mas pronto já me deixei disso, ahah! Entretanto continuo a ir aos jogos, mas reconheço que sou menos fanática, mais ponderada! Tudo vem com a maturidade! Mas a propósito, costumo comparar os arrepios que sinto quando vou ao estádio a um bom concerto de hardcore. É paixão na mesma!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

À Conversa Com... João Fonseca (ou PZ, para os amigos) - Parte III

Aqui segue a terceira e última parte da entrevista ao João Fonseca, sendo que à data da sua publicação já estarei na Argélia a fazer-lhe companhia. Quem ainda não o fez, fica desde já a saber que a maioria das cópias do livro que o PZ vai lançar têm voado das prateleiras, pelo que é melhor apressarem-se se quiserem possuir o livro. Podem encomendá-lo aqui.



Achas que a viagem te mudou de alguma forma? Mesmo que não tenha sido pessoalmente (o que também acredito que tenha acontecido), talvez por dentro, em relação à forma como vez o mundo e encaras uma realidade que antes tomavas por garantida.

Sem qualquer dúvida que sim, em todos os aspectos. Para além de ter mudado a minha forma de ver o mundo, foi também um grande crescimento a nível pessoal. Como sabes, foi a primeira vez que vivi fora da zona de conforto da casa dos meus pais. Sou de Almada, tirei o curso em Lisboa e como tal nunca tive necessidade de viver fora. Para além disso, mudou muito a minha forma de ver o mundo. Quando soube que o estágio ia ser na Palestina fiquei de pé atrás porque não sabia até que ponto iria ser rico em termos de experiência pessoal, em termos de ter algo para fazer para além do trabalho. Estar na Palestina ensinou-me que seja qual for o país para onde vais, hás-de ter sempre algo de fixe para ver, para fazer, para conhecer. 

O povo palestiniano surpreendeu-me muito pela positiva, tratam-te mesmo bem, ao ponto de até achares demais porque não fizeste nada para merecer tal tratamento. Percebi também que muitos dos problemas que às vezes temos no mundo dito civilizado são peanuts comparado com os problemas que há para o povo palestiniano, e mesmo assim eles vivem a vida de sorriso na cara. Fez-me questionar muitas das coisas que me incomodam e acho que me tornou uma pessoa mais consciente. Num último registo, mudou a minha forma de encarar o futuro em termos de viagens. Foi o primeiro país assim fora de rotas turísticas onde fui e sei que agora só vou parar quando tiver o mapa mundo todo pintado.

Ainda que eu saiba a resposta a esta, acho que era interessante explicares um pouco do processo desde decidir lançar o livro até o ter cá fora. Sei que não é um caminho fácil, mas é um extremamente interessante.

Bom, houve várias razões que me levaram a escrever o livro. Ponto um, queria ter um registo para mais tarde poder ler e recordar não só como foi a viagem mas também o que senti na altura. Confesso que tirei grande inspiração do livro que o Nuno Sousa lançou em conjunto com a Juicy Records, fez-me ver que com algum esforço e dedicação coisas que nunca antes pensaste são possíveis. No entanto, ao contrário do Nuno, pensei desde o início em escrever para lançar um livro (para quem não sabe, o Nuno escreveu um blog cujos posts foram posteriormente compilados em livro, juntamente com desenhos de sua autoria). Outra questão que me motivou a avançar com este projecto foi o facto de não ter encontrado nada do género para a Palestina. 

Antes de ir procurei relatos de viagens pela Palestina e não há nada de nada. Pensei que poderia ser um registo interessante para quem quisesse visitar a Palestina depois de mim (coisa que de facto já aconteceu: um rapaz do Porto, há certa de dois meses, mandou-me um e-mail a dizer que ia fazer o mesmo estágio que eu e mandei-lhe o rascunho que tinha do livro na altura, que segundo ele foi uma grande ajuda). Finalmente, a questão monetária. Eu fiz um estágio remunerado, mas a remuneração eram 100 euros mensais. Bem, ao ritmo de viagens a outras cidades que eu andava a fazer, para pouco mais de uma semana chegava. Bota-lhe em cima mais uns 500 euros de voos que sairam do meu bolso, um seguro contra todos os riscos para todo o estágio e mais um ou outro imprevisto. O livro vai ser uma forma de recuperar algum do dinheiro que gastei, para além de ser uma boa maneira de contar a história à família e amigos.
O processo de escrever o livro comecei-o logo na Palestina. Como tinha muito tempo livre no trabalho, fui escrevendo algumas coisas. No entanto, só o acabei de escrever aqui na Argélia, quase um ano depois. 

Pedi uns conselhos ao Ema, pedi-te outros a ti (já agora, para quem está a ler e não sabe, o André tem um livro bastante interessante sobre a sua descida da Costa Oeste dos EUA em 14 dias), e editei o livro todo, paginação, divisão por capítulos, etc. Pareceu que estava a recuar no tempo e que estava de novo na universidade, a escrever a tese de mestrado, mas desta vez sobre uma coisa que me dava mesmo motivação. Como não percebo nada disso, a capa ficou a cargo do meu amigo Rui Gaiola e adoro o resultado final. Os livros estão neste momento a ser impressos nos Estados Unidos, por isso vou pagar mais uma batolada de portes e taxas de alfândega, mas no fim do dia sei que vai valer a pena o esforço.

 
Que objectivos tens ou pretendes atingir com a venda do livro. Vai haver mais? Que outras aventuras tens na calha para nos apresentar futuramente, caso seja esse o caso?

Ooops, já respondi um bocadinho a isto na resposta anterior, a parte dos objectivos. Sem crise. Resumindo-os de novo: ficar com um registo para mim, serviço público a quem for à Palestina, recuperar dinheiro que gastei e contar a história aos amigos. Se vão haver mais livros? Não sei, mas espero que sim. Quando vim agora para a Argélia pensei em fazer o mesmo, uma espécie de diário, mas como a estadia é três vezes maior e a minha vida tem um carácter mais rotineiro, depressa percebi que não ia dar. Talvez compile no fim as melhores histórias ou as melhores viagens (já tenho umas quantas). Como já disse também anteriormente, espero conseguir visitar a maior parte do mapa mundo que conseguir, e, sempre que se justificar, podes contar com um relato escrito.

Se pudesses escolher um destino qualquer no mundo inteiro para fazeres o teu próximo estágio profissional, qual seria e porquê? Tem em conta que tem de ter alguma coisa a ver com a tua área, senão seria só férias!

Fogo só posso escolher um? É injusto. Podem ser três? OK, Obrigado. Escolhia a China, depois a Austrália e depois um qualquer país da América do Sul sem ser o Brasil. Tanto a China como a Austrália são países muito fortes na minha área profissional e com boas oportunidades de emprego, isto aliado ao factor turismo, são países que me atraem muito e onde quero ir quanto antes. A América Latina fascina-me também pelos mesmos motivos de turismo, mas em termos de sistemas de transportes são países onde face às necessidades e às limitações financeiras se fazem coisas muito inteligentes. Gostava muito de ter a oportunidade de trabalhar no Chile, ou no Equador, ou na Colômbia. Vamos ver como corre o futuro. 

Para já, vou para a Dinamarca em Novembro ter com a minha cara metade e procurar um trabalho que me permita viver lá e juntar uns cobres ao fim do mês para as próximas aventuras. Ela tem o mesmo espírito de aventura e viver em vários países está nos planos também, quando se tem alguém com quem dividir as experiências e no mesmo comprimento de onda é bem melhor.

Por fim, que recomendação dás a todos aqueles que por preguiça nunca mexeram o rabo para ir viajar ou tiveram receio de fazer Erasmus ou um estágio profissional fora do país? Partilha um pouco da tua sabedoria árabe!

Epah, se o motivo de não terem mexido o rabo for mesmo preguiça... Manquem-se. Acordem! Desliguem a tv e saiam do sofá. Mas acredito que não haja quem faça isso por preguiça. Portugal está cada vez mais complicado para juntar uns trocos e ir viajar, eu sei. Não tenham medo do desconhecido, porque a maior parte das vezes é bem mais tranquilo do que o imaginamos. Vençam os vossos complexos e medos, ou receios ou preconceitos e ideias pré-concebidas. Qualquer, repito, qualquer país do mundo vai ter algo de bom e positivo para vos dar. Se tiverem oportunidades de trabalho no estrangeiro, agarrem-nas com as duas mãos (ou com mais mãos, se tiverem). O mundo está lá fora à espera e o relógio do vosso tempo de vida não vai parar ou andar para trás. E depois de viajarem não guardem só para vocês. Escrevam textos, façam blogs, e se quiserem ter um granda trabalhão, escrevam um livro. Eu sou o primeiro a comprá-lo.

Queria aproveitar este tempo de antena final para agradecer-vos a vocês, André e Tiago, pela oportunidade dada nesta entrevista. Queria também dar-vos os parabéns pelo blog. Nunca fui de seguir blogs porque facilmente me aborrecem, mas vocês conseguiram mesmo fazer algo de especial aqui. Boas ideias nas diferentes rúbricas, conteúdo interessante, e uma escrita que agarra qualquer leitor. Força, não deixem isto morrer.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

À Conversa Com... João Fonseca (ou PZ, para os amigos) - Parte II


Para quem anda a dormir debaixo de um calhau, na semana passada estive à conversa com o PZ por ocasião do lançamento do livro que ele escreveu sobre a experiência na Palestina. Esta é a segunda parte de três, mais focada na experiência propriamente dita. A terceira parte sai na próxima semana, mas não esperem até lá para encomendarem a vossa cópia... um passarinho disse-me que elas beberam Red Bull e têm tido asas - fica a dica, depois não pedinchem por mais.


Em relação à comida e aos hábitos alimentares, sentiste muita diferença com a mudança abrupta ou adaptaste-te rápido? Estou a supor que lá não haja bitoques nem frango assado nem coisas do género. Descobriste alguns sabores novos que te tenham agradado e que tenhas querido repetir depois de teres voltado?

Fogo comi cenas brutais! Como é óbvio, indo para outro destino tento sempre comer as coisas locais e ir para a Palestina não foi uma excepção. O problema às vezes era decorar os nomes do que comia... Comi sem qualquer dúvida os melhores falafels da vida (que a propósito custavam cerca de 60 cêntimos e eram carregados com tudo aquilo que quisésses em termos de vegetais, batatas fritas, eu sei lá...). Em todo o lado há kebabs, mas bem melhores que os que se comem na Europa. Lembro-me também de um sítio em Nablus onde comi umas azeitonas divinais, conseguia almoçar só dessas azeitonas. Fui convidado para almoçar na quinta de uma família palestiniana onde comi um almoço cozinhado pelas mulheres da casa (não lhes pus a vista em cima, nem sequer para agradecer).

Era uma travessa gigante de arroz com frango e montes de especiarias, com amendoins por cima e regado com iogurte. Essa é uma coisa que eles fazem muito, juntar iogurte natural aos pratos, ao início achei estranho mas dei por mim a fazer o mesmo em casa, ahah. Na Jordânia comi uma coisa do mesmo tipo numa tenda no meio do deserto, mas o nome mudava. Em Israel descobri uma coisa que se chamava Sabich que era boa demais: uma sandes com beringela frita, um ovo mal cozido (é bom!), batata frita e uma carrada de vegetais. Brutal mesmo! Gastronomicamente foi uma viagem muito gratificante. Acho que a principal diferença é mesmo não utilizarem carne de porco.

Como é que é a cidade em termos culturais? Existe muita influência americana ou europeia? Posso-te dizer que essa é uma das coisas que me desperta mais interesse nesse tipo de locais: perceber até que ponto estão afastados do nosso “primeiro mundo”. Longe de achar que isso é uma coisa negativa, acho que ajuda a manter a identidade das cidades e das pessoas. Como é o estilo de vida palestiniano em termos de diferentes classes sociais, hábitos culturais, etc.?

Bom, em termos culturais os países árabes estão ainda muito colados à religião muçulmana e não passa muito disso. Há um cinema em Nablus que passa filmes internacionais, mas os filmes chegam com mais de um ano de atraso. No entanto houve coisas que me surpreenderam, como por exemplo a banalidade da internet. Qualquer café, qualquer mercearia, qualquer estabelecimentozeco tem wireless! Normalmente sem password para toda a gente poder usar. É impressionante, acabas por ter mais facilidade em conectares-te à internet que na Europa. Outra coisa que não estava à espera é a influência que o futebol (principalmente o espanhol) tem nesta gente. Os palestinianos ou são do Real Madrid, ou são do Barcelona, não vêem mais nada à frente! Eu não cheguei a presenciar nenhum, mas contaram-me que quando há jogo entre as duas é certinho que vai haver pancada na cidade... é de loucos. Claro que mal dizia de onde era perguntavam-me se era amigo do Ronaldo. Claro, andei com ele na escola! Também achei genial haver cafés que passam a bola em streaming num plasma, lol. Basta dizer ao gajo que jogo queres ver e ele vai a procura de um stream na net e segue jogo.

Outra diferença cultural, que acaba por se prender também com a vertente religiosa, é o horário de trabalho. A hora de saída normalmente é as 15/16h no máximo, mas entram no trabalho por volta das 5:30 ou 6 da manhã. Isto porque a primeira reza é as 4 e tal da manhã, então já que estão acordados, porque não ir logo trabalhar? Veres gente na rua com um tapete no chão e a rezar não é de todo incomum. Lembrei-me agora também de outra coisa que me deixou intrigado: o meu patrão, engenheiro civil, um gajo com curso superior e que não era burro nenhum, não sabia o que eram low costs. Nem sequer sabia que se podiam marcar viagens de avião pela internet. Pensando um pouco, faz sentido. Ponto 1: a Palestina não tem aviões, muito menos aeroporto. Ponto 2: os Palestinianos não têm cartão de crédito, por isso não podem comprar nada na net.

É uma pergunta um bocado remota, mas foste a algum concerto - não necessariamente de hardcore - por lá? Existe alguma cena musical? Por outro lado, houve alguma banda que tenhas ouvido mais enquanto lá estiveste e que agora te vá sempre recordar do tempo que lá passaste?

Não fui a nenhum concerto. O único de que soube e que tinha mesmo vontade de ir era um de uma banda de hip hop palestiniano, mas calhou na altura da minha viagem à Jordânia por isso não deu. Amigos meus que foram disseram que foi bem fixe! Não há bandas de hardcore lá. Duvido mesmo que haja guitarras eléctricas... Não vi nenhuma loja de música ou algo do género. No entanto, em Israel fui a duas festas de dubstep que foram bem fixes, em duas noites consecutivas, uma em Tel Aviv e outra em Jerusalém. Epá, banda que tenha ouvido mais não houve nenhuma. E explico-te porquê: tenho um iPod de 160GB com cerca de 140 ocupados. Há cerca de uns dois anos e meio meti na cabeça que ia ouvir aquilo de uma ponta à outra, por ordem alfabética. E aqui estou eu, ainda na discografia do Snoop Dog. Chama-me louco.


Tinhas-me dito na primeira parte que fizeste algumas viagens, qual é que foi a gostaste mais e que repetirias sem piscar os olhos? Enquanto lá estiveste tiveste tempo para fazer GeoCaching e continuar a manter a tua posição de futuro gajo mais GeoCachado do mundo? Suponho que não tenhas dispensado o detector de metais, não te fosse sair uma surpresa bombástica!

Ahah, só fiz uma cache na Palestina, na cidade onde estava, e custou-me uma manhã inteira a subir a uma montanha, sozinho, de phones nos ouvidos (a ouvir o iPod de uma ponta à outra, tá claro!). Fiz mais três em Petra e mais umas quatro em Tel Aviv, por isso decaí muito no ranking dos gajos com mais caches do mundo, ahah. Hmm escolher uma viagem de todas as que fiz é difícil, todos os dois meses foram uma viagem e repetia-a na totalidade sem qualquer dúvida, de preferência com gente mais chegada porque quando viajas sozinho ou com gente que não conheces a sensação com que ficas é “fogo, curtia mesmo estar a partilhar isto com a minha malta”. Se tivesse de escolher apenas uma das viagens... a viagem à Jordânia. Foi uma semana brutal, que começou com dois dias em Jerusalém seguidos de um atravessar da Jordânia de sul para norte. Começámos por Wadi Rum, onde passámos uma noite no deserto, numa tenda na base de um rochedo gigante.

Vimos o nascer do sol no deserto e fizemos uma tour por Wadi Rum numa pick up a cair de podre. Vimos camelos selvagens, atravessámos uma ponte de rocha natural e bebemos chá com os beduínos. Seguiram-se dois dias em Petra, onde dei uma de Indiana Jones e andei a trepar calhaus para obter as melhores fotos. Um conselho de amigo: se alguma vez forem a Petra, nunca menos de dois dias. Passei lá dois dias das 9h às 17h e ficaram coisas por ver. Uma pessoa pensa em Petra e o que vem à cabeça é só o edifício do Tesouro, mas aquilo tem tanta coisa para ver para além disso... é um mundo! No hostel onde ficámos vimos o filme do Indiana Jones (na noite anterior ao primeiro dia em Petra), mesmo para aumentar a ansiedade! Depois disso, passámos dois dias na capital, Amman, que é gigante! Nunca pensei ficar tão surpreendido com o tamanho da cidade, mas se calhar era por estar habituado às pequenas cidades palestinianas. Tem um dos maiores teatros romanos que já vi e tivémos oportunidade de visitar uma mesquita que tem capacidade para 3000 pessoas. A volta à Palestina foi também uma grande aventura, mas deixo isso para quem ler o livro senão conto tudo aqui e depois não vendo nada, ahah.

E no que toca a aventuras, há alguma que mereça destaque? Chegaste a ver a tua vida a andar para trás alguma vez ou nem por isso? Até que ponto é que a Palestina é tão perigosa como a fazem parecer? Alguma vez sentiste que estavas a ser observado ou olhado de lado por não seres de lá?

Eu sinceramente não me senti inseguro quando estive por lá. Quer dizer, tens de andar sempre com 4 olhos (para além dos óculos) porque pode acontecer qualquer coisa a qualquer altura, mas acho que para nós internacionais é relativamente seguro. O maior problema é mesmo para eles, palestinianos. Nas fronteiras estão sempre tramados, são sujeitos a revistas atrás de revistas, nos checkpoints ficam horas às vezes, enfim. Quando passava um check point e mostrava o passaporte português raramente me levantaram problemas. Os palestinianos são muito acolhedores e quando percebem que és estrangeiro tratam-te muito bem (às vezes demoram a perceber, porque a nossa fisionomia portuguesa é muito parecida à deles, passamos facilmente por árabes). A maior desconfiança e olhares de lado vieram sempre dos israelitas. À vinda, no aeroporto, eu e as minhas malas fomos revistados durante mais de uma hora pelo simples facto de ter estado na Palestina... enfim... A única vez que vi a minha vida a andar para trás foi quando fui electrocutado no banho, logo no dia que cheguei. De resto, tudo tranquilo.


Não percam a terceira e última parte da entrevista na próxima terça-feira à mesma hora! Se não precisam de mais conversa para comprarem uma cópia, façam-no aqui (mas leiam a terceira parte à mesma, claro!). 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

À Conversa Com: João Fonseca (ou PZ, para os amigos) - Parte I

Quem não conhece o PZ? Mesmo do ir na rua em Londres e à toa ouvir alguém chamar por ele - that famous. Anyway, o PZ mandou-se para a Palestina num estágio de alguns meses e decidiu ir mantendo um diário enquanto lá estava. Gostamos disso? Adoramos isso. Pessoas que escrevem sobre as suas viagens e aventuras são bué mais fixes (dica!). Piadas aparte, desse diário resultou um livro que está agora agendado para - finalmente - ver a luz do dia. Achei por bem conversar um pouco com ele para vos deixar tão excitados como eu para este lançamento! Siga aí...


PZ, antes de mais, os meus parabéns pelo lançamento do livro - sei que não é um processo fácil e espero que o pessoal aprecie o teu trabalho. A primeira pergunta que quero fazer é talvez a mais óbvia para quem não te conhecer: como é que foste parar a Israel? Fala-me um pouco do processo, da decisão e da expectativa que tinhas antes de ir.

Hey! Obrigado! De facto não é nada fácil... Por momentos pensei que estava na faculdade de novo a escrever a tese de mestrado, mas desta vez sobre um tema que curtia e com uma motivação muito maior. Vamos lá começar por separar as coisas. Eu fui para a Palestina, não fui para Israel. Está bem que para efeitos legais é um só país, mas na minha cabeça gosto de manter presente a separação. Através da faculdade candidatei-me a uns estágios (programa IAESTE) onde te mandam durante dois ou três meses para uma empresa no estrangeiro para teres uma experiência de trabalho. Era o terceiro ano que me candidatava, sendo que nos dois anteriores tinha ficado de fora. Como tal, nem olhei muito para as opções e candidatei-me a todas.

Não tinha feito Erasmus porque não tinha médias por isso o que eu queria mesmo era ir para algum lado, qualquer lado. Fui à reunião de atribuição de estágios sem muitas esperanças, mas para meu espanto quase ninguém se tinha candidatado ao estágio na Palestina e tinha sido eu o colocado. Lembro-me de telefonar de imediato à minha mãe a dar a notícia e a reacção dela foi mais ou menos a minha: "Er... OK...". Confesso que não sabia muito bem o que esperar, mas tive bastante tempo para me inteirar da realidade da região e estudar muito bem aquilo a que ia visto que só partia daí a seis meses. No entanto, antes de ir parece que nada do que tenhas lido, nenhuma informação que obtiveste parece suficiente para te preparar para uma ida a um país destes. 

Primeiro a informação que encontras é escassa e muitas vezes não te diz o que queres realmente saber. Segundo, ir para um país onde tão depressa está tudo bem como está tudo mal adiciona uns pós de ansiedade à coisa. Tudo o que li deu-me motivações extra para ir mas também me foi deixando cada vez mais ansioso. Em Londres, dias antes de partir pudeste confirmar o meu estado de espírito, ao mesmo tempo que sabia mais ou menos ao que ia era impossível prever o que estava para vir.

E, antes de ir, sentiste algum tipo de receio em relação à tua segurança? Ou achaste que, embora a situação do país fosse instável, tu estarias provavelmente num sítio seguro o suficiente? Outra coisa que me deixa curioso é o tipo de alojamento que te foi oferecido, sabias de antemão o que ia ser ou foi uma surpresa?

Ninguém vai para a Palestina sem pelo menos um mínimo de insegurança dentro de si. Nem que seja apenas o receio de não ser aceite à entrada em Israel pelo simples facto de ir para a Palestina. Muito devido às notícias que li na internet diariamente num site que descobri apenas referente ao Médio Oriente fiquei progressivamente mais inseguro. Isto porque Nablus (a cidade para onde fui) é uma das cidades mais problemáticas na Palestina, ou pelo menos os seus arredores. Constantemente lia notícias sobre settlers que atacaram aldeias ao pé de Nablus, pegaram fogo a oliveiras, mataram um ou outro, coisas do género. Apenas quando cheguei percebi que dentro da cidade estaria seguro porque os settlers nunca se atreveriam a entrar mesmo na cidade, mas é verdade que os arredores de Nablus são massacrados constantemente.

No entanto, apesar da segurança relativa dentro da cidade, posso dizer que passei os dois meses moderadamente com o rabo entre as pernas. Não deixei de fazer nada que quisesse fazer por isso, mas a insegurança esteve sempre lá. O alojamento foi-me fornecido pela faculdade e tudo o que sabia era que ia ficar num apartamento deles a viver com pessoal internacional. Ponto final. Não me disseram nem mais uma palavra, se era longe, se era perto, se partilhava quarto ou não, nada.

Era um apartamento pequeno, com quatro quartos, uma cozinha, duas casas de banho e uma sala/corredor. Fiquei no quarto maior, que era mesmo grande e tinha três camas, um frigorífico que não funcionava e um armário com três portas e autocolantes de mesquitas. Quando cheguei viviam lá um inglês e um norte americano que se tornaram grandes amigos meus, sendo que mais a meio do estágio foi para lá um belga, igualmente boa onda. O apartamento era mau e estava sempre a haver algum problema com qualquer coisa, ora o sistema de aquecimento de água do duche que dava choques, ora o frigorífico que quase pegava fogo, passando pela máquina de lavar roupa que nos inundou a casa umas quantas vezes e o autoclismo que se descolou da parede. Se tivesse passado dois meses na Palestina sem sair daquela casa tinha sido aventura suficiente.

Bem, medonho é pouco. Imagino a primeira reacção que tiveste ao ver isso, ahah. Tu antes de ir já tinhas feito alguns planos de viajar dentro do país ou pensavas ir só numa de ficar lá a cumprir o estágio e aproveitar para conhecer a cidade? O teu espírito aventureiro não estava com curiosidade para o que pudesse haver para além de Nablus?

Comecei a fazer planos disso mal soube para onde ia e mal percebi que seria relativamente seguro viajar para certas cidades. Nunca me passou pela cabeça ir à Faixa de Gaza (até porque não se pode, é preciso uma autorização especial que pelo que me chegou aos ouvidos não é nada fácil de obter) e tirando isso a Palestina acaba por ser segura para turistas. Os problemas são sempre mais para os palestinianos e não para estrangeiros. A cidade de Nablus também é pequena, por isso em dois meses ia ter mais que tempo para a ver na totalidade. Tive a sorte de conhecer logo de início um bom grupo de malta internacional com quem acabei por combinar muitas viagens a cidades Palestinianas e uma grande viagem de uma semana à Jordânia, a aproveitar um feriado que se atravessou no estágio.

Seria impensável para mim ir ali para tão perto e não ir a Petra, um dos destinos turísticos que me estava "entalado" desde miúdo, por causa do filme do Indiana Jones. Para além de Petra consegui ir à capital Amman e ao deserto de Wadi Rum, onde viveu o Lawrence of Arabia (vi a casa dele e tudo). Em Israel visitei Eilat, Tel Aviv e Jerusalém. Na Palestina consegui ir a todas as cidades que fazia questão: Bethlehem, Hebron, Jericho, Ramallah, com uma passagem obrigatória no Mar Morto. Como podes ver, espírito aventureiro foi o que não faltou.


Como foram os primeiros tempos por lá? Quais foram as maiores diferenças culturais que encontraste e quão difícil foi para ti adaptares-te a elas?

A minha primeira impressão foi "onde é que eu me vim meter"... As ruas eram um caos de gente e carros a buzinar, sempre com trânsito. O sistema de transportes era baseado num sistema de táxis partilhados. As compras eram feitas em pequenas mercearias e mercados de rua. As mulheres andam tapadas e os homens fumam chicha na rua. Houve muita informação diferente a entrar na minha cabeça ao mesmo tempo e eu fui absorvendo tudo. Aos poucos fui percebendo como as coisas funcionavam, aprendi um par de palavras em árabe que me ajudavam a apanhar o táxi para onde queria e coisas do género. Acho que me adaptei bastante bem e bastante rápido à realidade palestiniana, pensei que fosse mais difícil.

Uma coisa que me surpreendeu bastante é que qualquer café de merda, qualquer mercearia, qualquer loja, tem wireless. Acabas por ter mais redes disponíveis do que na Europa, mas o sinal é tão fraco que abrir um email pode demorar 5 minutos. Outra coisa a que tive de me habituar foram as seis rezas diárias. Tinha uma mesquita a pouco mais de 50 metros da minha casa. Para quem não sabe, as rezas são cantadas/gritadas e difundidas através de altifalantes colocados nos minaretes das mesquitas. Uma das rezas é mais ou menos às 4 da manhã... durante a primeira semana acordava sempre sobressaltado e em estado de pânico, não sabia o que estava a acontecer. Depois da primeira semana já nem sequer dava por eles.

Olha, eu acho que se me pusessem a ouvir cânticos às 4 da manhã era deportado no dia seguinte por pegar fogo a uma mesquita, ahah. Como era a tua rotina enquanto lá estiveste? De que é que consistia o teu estágio e que tipo de trabalho tiveste que fazer? 

Agora lembrei-me de um episódio fixe em relação aos cânticos em que tive a pouco de fazer o que disseste. Como é óbvio nem todos os muçulmanos acordam a essa hora para fazer a reza, nem mesmo o "padre" (não sei o nome que eles dão ao gajo que dá a reza). Uma madrugada, nessa reza das quatro da manhã, o CD que eles deixaram para debitar a reza encravou e ficou na boa uns 20 minutos a fazer scratch até que alguém o fosse tirar... a sério, desesperante. Outra coisa que eu me lembrei foi a ideia que tive de ir lá à socapa e trocar o CD por Black Flag ou assim, mas nunca consegui concretizar.

Fui trabalhar numa obra de um novo hospital como engenheiro de fiscalização. Para teres uma ideia, no dia em que cheguei à obra o meu patrão nem me conhecia. Durante os dois meses a única cena de relevo que fiz foi um relatório sobre uma viga principal que cedeu, propus uma solução e fiz um relatório fotográfico sobre isso. Nada de mais portanto. A minha rotina consistia em acordar por volta das 8h, ir para o hospital das 9h as 15h (horário brutal) e estava feito. Depois disso ia combinando coisas com os meus amigos internacionais para as tardes e noites. Nos fins de semana era quase certo sair sempre de Nablus.

Portanto, até certo ponto, mais que um estágio, foram umas belíssimas férias, não? Só tenho a dizer: granda onda! Lá também havia aquele filme do fim-de-semana ser às sextas e sábados, não era? Tiveste dificuldade em ir ao Facebook aos domingos e ver a malta toda a anhar à espera de segunda-feira ou não te fez muita diferença a mudança? Já agora, a que se deve isso? Suponho que tenha a ver com motivos religiosos.

Nem mais! Foram umas férias bem merecidas, porque tinha acabado de entregar a tese de mestrado quando fui. Foram bem mais umas férias do que um estágio. Sim, o fim-de-semana lá também é às sextas e sábados. Sexta é o grande dia de reza para os muçulmanos, por isso nesse dia folgam sempre. Há países onde o fim de semana é quinta e sexta, outros onde é sexta e sábado. Ao início foi um bocadinho estranho mas dois ou três fins de semana depois já nem notava. Aqui na Argélia é a mesma coisa e já é totalmente normal. Acho que a família e amigos demoram mais a habituar-se do que eu. O que é mais chato é que às vezes não posso ver a bola ao domingo à tarde porque estou a trabalhar, mas pronto. Isso de ir ao Facebook e ver a malta a anhar ao domingo não me fez confusão porque era exactamente o que eu estava a fazer no trabalho também, ahah.


Esta é a primeira parte de três, a próxima sai na próxima semana - fiquem atentos! Entretanto, se quiserem encomendar o livro, podem fazê-lo aqui, e já agora, adicionem a página de lançamento no Facebook aqui. Não, não vai haver nenhum lançamento físico, mas a partir desse dia já vai estar no correio a caminho das vossas mãos! Não durmam! 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

À Conversa Com... Emanuel Matos

E quem é que não conhece o Ema? Só pessoal que tem andado a dormir debaixo de um calhau nos últimos anos, de certeza. O Ema, para além de ser um granda buddy e meu vizinho aqui em Londres, é o patrão da editora mais sumarenta que aí anda: a Juicy Records. Acreditem quando digo que o esforço que ele põe na editora merece todo o apoio que lhe possam dar, o miúdo dá o litro! Sempre que estamos juntos conversamos quilómetros sobre isto e aquilo, de forma que achei que seria boa ideia dar a conhecer um pouco do backstage da Juicy, passando por outros detalhes não tão sumarentos, mas igualmente excitantes!


Ema, creio que nos dias que correm poucas pessoas te conheçam como o "Ema de Words of Hate", no entanto acho que há aí uma história interessante por descobrir. Do que me lembro, os Words of Hate não eram bem como as outras bandas da Margem Sul da altura. Fala um pouco sobre a origem e percurso da banda, para os mais curiosos.

Eish, Words of Hate…o que tu foste pegar. Pá a banda começou como qualquer banda de putos, cena de amigos, letras que eu escrevia num caderno ou que todos contribuíamos nos ensaios (3 vocalistas é complicado ahah)…penso que tinha 14 ou 15 anos quando dei o meu primeiro concerto com WOH, nem sabia bem o que estava a fazer lol. A nossa onda inicial era meio hardcore new school, acho eu, mas depois entrou o Gil, que era um gajo mais do metal que fomos desencantar no mIRC, que tocava riffs de Slayer para aquecer os dedos, e começámos a entrar numa onda mais pesadona e metalada…não tenho bem noção mas acho que durámos uns 2 anos, gravámos 2 demos, as duas em take directo, portanto cheias de pregos, demos uns bons 10 ou 15 concertos, uma cover de Terror (“Life & Death”, ainda hoje uma das letras que faz mais sentido para mim), e depois acabámos por deixar a coisa morrer porque o Pissarra decidiu sair da banda e era complicado encontrar bateristas na MS. Ainda hoje alguns dos membros da banda são dos meus melhores amigos, outros é uma festa quando os vejo, por isso foram sem dúvida bons tempos.

Ya, lembro-me de ver um concerto vosso na Casa Amarela e vibrei bué com essa cover de Terror. Creio que essa tenha sido a tua única banda, certo? Qual é que foi o teu percurso entre o fim da banda e o começo da Juicy? Os estudos tiveram alguma influência nisso?

Nah ainda tive mais uma banda, Bulletproof! Tu chegaste a meter-nos a tocar com Justice no último concerto que els deram cá pah! Essa sim já foi uma banda com pés e cabeça musicalmente.
Curiosamente foi o Pissarra, o ex-baterista de WOH que me chamou para um ensaio, portanto foi a minha segunda banda com ele…depois tínhamos os irmãos Matos, o que curiosamente fazia 3 gajos com sobrenome Matos na banda, e o Paulinho da Fruta, segundo vocalista que acabou por sair a meio. Ainda entrou o Kolde, que hoje toca em Steal Your Crown…essa banda foi bué fixe, liricamente consegui deixar muito de mim nesse projecto, e musicalmente a banda estava no ponto.
Bulletproof durou enquanto eu estudava em Setúbal, portanto os meus anos de ensino superior…os estudos afectavam-me na carteira, porque estudar mesmo nunca foi algo que me preenchesse o tempo. Andava sempre sem guita, muitas vezes não pagava os ensaios porque só tinha guito para o comboio até Almada ou Corroios…depois a banda terminou, acalmei, andei a fazer umas brincadeiras com a malta de Never Fail (aka Nail Fail quando eu fazia macacadas em palco), e finalmente foi já em 2010, quando estava a tirar outro curso na Restart, que acabei por fundar a Juicy, justamente para editar o split de Never Fail com Pussy Hole Treatment.

Ahah, sabes que memória para isso já não dá. Mas sim, claro que me lembro. Não acredito é que o propósito da editora tenha sido só lançar esse disco? Desde o início que acho que a Juicy é um projecto interessante e com muito por onde se lhe pegue. De onde é que surgiu a tua inspiração para começar a editora e o conceito por trás da imagem (de marca) que adopta desde o começo? Claramente não foi uma coisa feita às três pancadas.

A fonte da inspiração em si acho que surgiu da coisa mais óbvia para alguém que cresce dentro do punk hardcore: o do it yourself. Queria ver uma editora coerente, com ideias novas, que fizesse coisas dinâmicas, além do editar discos e promover concertos… como achei que não havia disso em Portugal, fiz eu.
Tirei ideias da Deathwish principalmente, que para mim ainda hoje é das coisas mais bem feitas no underground norte-americano, tanto em termos estéticos como na forma como promove os seus discos e como mantém uma certa ética por detrás do que é feito. A cena da imagem para mim sempre foi fulcral, porque já de há muitos anos leio coisas sobre design gráfico e sei como os conceitos de branding afectam a percepção que as pessoas têm da informação que recebem. Quis distanciar-me dos estereótipos gráficos que já existem no hardcore, porque nunca quis que a editora fosse só sobre hardcore, e por isso acabei por dar com o “Juicy” à pala do Notorious BIG, e criar o conceito e o grafismo minimalista todo a partir daí.

A Juicy foi pensada como um projecto de comunidade, de colaborar com pessoas para fazer coisas acontecer. Desde o início que só saíram discos porque as próprias bandas ou outras editoras entraram com guita, só começaram a haver mais vídeos porque o Verduras se empenhou na Juicy TV, só houve distro porque o PZ, e mais tarde o Nets e agora o Gaiola têm ajudado nessa parte. No fundo, depois de as ideias surgirem penso em pessoas ou elas vêm até mim e experimentamos e fazemos acontecer. Acho que essa é uma das grandes lições que tirei do hardcore e que tento aplicar na minha vida e na Juicy.


Como é que foi a aceitação ao início? Um dos problemas que encontro no público português é haver alguma dificuldade em abraçar ideias novas ou diferentes. Isto é algo que noto desde que comecei a sair de Portugal para viajar ou ver concertos, em 2002. O "lá fora" parece estar sempre um bocado à frente e o tuga parece ficar à espera dois ou três anos até se actualizar. Concordas com isto? Ou dirias que a tua experiência com a Juicy foi diferente?

Sim, Portugal está sempre atrasado na cultura… na música uns 2 ou 3 anos, em outras áreas até mais. Mas no hardcore, e até no underground em geral, penso que as pessoas estão mais atentas ao que se passa lá fora, e por isso se calhar absorveram as ideias da Juicy com relativa boa aceitação. Quer dizer, se me falares em vendas, aí não posso dizer que tenhamos o maior sucesso, o único item que está esgotado é o livro do Nuno (andamos a falar numa 2ª edição há meses e meses). Mas no resto das iniciativas tivemos sucesso: a distro, que desde sempre foi suposto ser uma cena curada, com selecção de discos e editoras que eram relevantes, chegou a esgotar discos em 30 minutos depois de eu anunciar online que os tinha; a Juicy TV, emulando o que o mano da hate5six faz nos EUA, tem vídeos com milhares de plays, incluindo bandas portuguesas. Antes da Juicy TV tu não vias vídeos com “pós-produção” de concertos de hardcore, havia pessoal que filmava tudo ou uma música ou outra e metia no YouTube, mas eu notei claramente que depois de começarmos com esse projecto outras pessoas começaram a fazer isso, e outras editoras perceberam que o vídeo era um meio de promoção muito importante - especialmente na era das redes sociais.

O primeiro podcast, que saiu no dia de Natal de 2011, foi a cena mais partilhada que tivemos. Eu acordei no dia seguinte e haviam pessoas que eu não conhecia de lado nenhum a partilhar o link, e tivemos 300 plays ao fim de uma semana ou lá o que foi. Eu pensava que só os meus amigos é que iam ouvir aquilo!
No fundo acho que as pessoas perceberam a cena de na Juicy estarmos a importar ideias e coisas que já se faziam lá fora, dando-lhe o nosso toque pessoal, e sempre tentando manter uma certa qualidade na medida do possível. Acho que ainda temos muita evolução e melhoramentos a fazer, e ainda há muita gente que se calhar fez like na página do facebook mas nem sequer percebeu quais são as ideias por detrás, mas por isso mesmo é que nunca paro de tentar novas ideias e friso sempre que o projecto é aberto à colaboração de qualquer pessoa.

Não vou mentir, esses motivos foram exactamente os que me despertaram interesse na Juicy - para além de aparentar ser uma editora com pés e cabeça. Quando se opta pela rota DIY, a estrada acaba por sem sempre mais longa, mas também o é a satisfação no fim. De todos os lançamentos até agora, qual foi aquele em que te deu mais gozo concretizar e porquê?

Hmm, essa é uma pergunta difícil. É como perguntares ao pai qual é o filho favorito, cada um foi especial e deu-me gozo por motivos diferentes. Deixa lá ver, o primeiro é sempre o primeiro. O split de Never Fail e PxHxT foi eu a descobrir como se fazia tudo, acabei por fazer o design do artwork excepto a ilustração da capa (que foi desenhada por um senhor turco, professor de animação e mega fã de basketball), e tive uma aventura engraçada com o PZ para conseguirmos ir buscar as capas. Depois em termos de qualidade nos detalhes e acabamento, as tapes surpreenderam-me bué, e a colaboração com o Gaiola (Best.Of.Me Records) foi super fixe. O disco dos Resposta Simples foi o que me deu mais prazer em termos de colaboração com a banda, eles foram super empenhados, arranjaram os fundos quase todos para a press sozinhos e organizaram concerto de apresentação e tudo mais - tomara todas as bandas serem assim!

Mas ok, acho que sendo bem honesto o que mais me orgulho é do livro do Nuno. Não só porque foi um parto difícil (mais de 1 ano desde que lhe fiz o "pitch" da ideia num concerto em Lisboa, fora meses e meses de revisões e de paginação), onde tive que aprender como fazer um livro e como o publicar, mas principalmente pelo resultado final. Nem foi a cena de esgotar ou não. Foi mesmo os bons momentos que se proporcionara...ter ido de propósito a Portugal fazer a apresentação, no dia dos meus anos, com o Nuno a dormir em minha casa, a conhecer a minha mãe e a apanhar bezanas com os meus amigos e pessoal a vir de Penafiel de propósito, fora o resto da malta amiga que apareceu... foi especial. Foi daquelas cenas que criam laços importantes entre as pessoas. Nesse aspecto essa edição ficou marcada por um carinho especial.
E nem falemos depois da apresentação no Norte, onde ele teve umas 100 pessoas e uma cena super bem organizada, e depois nem tinha livros para vender, ahah!


E essa segunda edição vai acontecer? Como é que foi a transição do HQ da Juicy da Torre da Marinha para Londres? Achas que isso afectou um bocado o futuro da editora ou, por outro lado, abriu novas portas? Tinhas a editora há quanto quando te decidiste mudar?

A segunda edição tem que acontecer porque houve montes de gente que ficou sem livro, familiares do Nuno inclusive, e um gajo não vai fazer um repress só por fazer, quando for para sair a segunda press é feita é com capa diferente e revisões de texto e tudo mais. Por isso é que está a levar um ano novamente.
Quanto à transição, pah foi complicado… eu comecei a Juicy em Março de 2010, em Novembro mudei-me para cá, e acabei por lançar dois discos no período do Natal desse ano, o que ainda foi mais caótico. Ainda fui lá em Dezembro para acertar coisas só da Juicy mas a mudança acabou por afectar bastante, porque passou a ser tudo à distância: mais emails, comunicação mais demorada, detalhes que escaparam porque nem cheguei a ver certos discos antes de eles serem lançados. Tudo a um ritmo dez vezes mais lento. Por isso é que em 2011 só saíram duas cenas, e este ano se saírem duas vai ser porque os emails finalmente foram respondidos! 

Abrir portas nem por isso, tentei fazer alguns contactos e fui bem recebido por algumas pessoas (o Tom e pessoal da Rucktion foi super boa onda), mas outras cagaram mesmo e nem se deram ao trabalho de responder a meia dúzia de perguntas. Acho que a onda aqui é mais do cada um faz o seu projecto muito isolado e só se estiveres na mesma “cena” é que comunicas com os teus “pares”. O que é estúpido, porque para alguém que vem de fora, ou que está a começar a ir a concertos, não dá para comunicares com os mais “experientes” com tanta facilidade, e depois o que acontece é os putos irem para Internet em vez de haver aquela humildade de aprender com quem já faz há mais tempo. Falta o senso de comunidade, fora algum pessoal mais da velha guarda de cá que já se conhecem aos anos. Definitivamente a cena hardcore em Portugal está bem melhor nesse aspecto, talvez por sermos um país pequeno. No fundo o HQ ainda continua dividido, a distro e todos os nossos discos continuam a ser enviados de Portugal, por isso até certo ponto posso sempre gozar e dizer que agora somos uma multi-nacional, ahah. Mas a longo prazo quero a Juicy mais activa no UK, daí que desde há uns meses para cá a comunicação via site e redes sociais é maioritariamente em inglês. Não é esconder as raízes tugas da editora das quais me orgulho bastante, é mesmo porque um gajo vai ao Vimeo ver as estatísticas dos vídeos e 50% dos plays são americanos e de outras zonas do mundo, por isso tem que se direccionar a comunicação para toda a gente que possa vir a querer acompanhar o que fazemos.

Quais são então os planos para o futuro da Juicy? Já deu para perceber (com as colaborações, o podcast, etc) que tens interesse em explorar várias áreas que não o habitual "disco em formato X ou Y". Falando do podcast, por favor elucida-me em relação à proveniência dessa tua magnífica voz de locutor - decerto que não sou o único que está curioso! 

Os planos é continuar a fazer mais e melhor. Discos novos em vinil vai ser complicado até ao final do ano porque financeiramente não tenho meios para mandar nada cá para fora já, mas em 2013 quero tentar lançar pelo menos um LP, de uma banda em que acredite mesmo, tipo Step Back que estão a gravar, e a segunda edição do livro também vai ter que sair. A ideia é também manter as cenas mais dinâmicas e online que temos e experimentar coisas novas. O podcast e agora as mixtapes que estão a começar são 2 coisas para manter, assim com a newsletter que vai passar cada vez mais ao formato mini-zine, só versão online, e vai ser cada vez mais internacional. Aliás, em termos de internacionalidade quero ver se pelo menos consigo fazer mais coisas aqui no UK, contactos com bandas e vídeos de concertos, e em Portugal meter mais discos na distro quando tiver guito (se alguém quiser movimentar a cena comigo que avise; o PZ em tempos entrou na cena 50/50 e penso que não ficou a perder guito, hehe).

Podcast e voz de locutor, pah não sei só tu é que me vieste com essa, ahah! Pah sinceramente o podcast dá um trabalhão porque eu não gravo tudo de uma vez e faço inúmeros takes até a coisa ficar como eu quero, é o mal de ser perfeccionista. Acaba por parecer uma coisa bué smooth mas é porque regravo até ficar assim, e faço a mistura de tudo, meto música que ando a ouvir na altura como background quando estou a falar, tudo em várias pistas - à pala disso é que temos o 3º episódio para sair há meses, o Joel escolheu músicas e escreveu sobre elas e tudo bonito, e depois eu ando sem tempo para montar o aparato da gravação e passar umas boas horas a falar para o micro (sem muito barulho da rua, portanto convém ser à noite). Ou seja as coisas dão trabalho, basicamente, mas também dão um gosto enorme claro, senão nem ao meu ritmo as fazia.

Boa sorte com isso e venham daí mais ideias frescas e sumarentas. Para terminar, queria só saber se concordas comigo quando digo que a Da Mystery Of Chessboxin' é a melhor malha do 36 Chambers?

Essa pergunta é complicada. A parte do Ghost nessa música é a minha favorita do disco, a agressividade com que ele entra na música faz esquecer os versos dos outros todos, mas acho que a minha favorita como música/letra será sempre a C.R.E.A.M. O que concordo de certeza é que o 36 Chambers é o melhor disco de hip-hop de sempre, em empate técnico com o Illmatic e o Ready to Die.

Valeu Ema! Para os interessados, fica aqui o link para o site da Juicy: http://juicyrecs.com. Apoiem produto nacional porque "o que é Nacional é bom!"

terça-feira, 24 de julho de 2012

À Conversa Com... Rafael Madeira

Se houver quem precise de apresentações, o Rafael é um dos pilares da cena hardcore portuguesa actual. Porquê? Porque conhece todas as pessoas do hardcore do mundo, marca concertos, tours e ajuda bandas há mais tempo do que a internet faz parte da cena portuguesa. Não chega? Era baterista de Pointing Finger e já deve ter tocado em trinta bandas nos últimos dez ou doze anos (incluindo algumas de fora...!). Basicamente: o Rafa é uma lenda vida – e eu não pude perder a hipótese de o deixar inaugurar este espaço!


Rafa, eu já te conheço há buéda anos. Até assusta um bocado, olhando assim para trás. Tenho muitas memórias de tempos passados no Algarve para ver concertos de Pointing Finger, antes de virem tocar a Lisboa pela primeira vez. Como é que era a cena hardcore de Faro nessa altura (início de 2000)? Como é que as coisas aconteciam numa altura em que a internet ainda não tinha ganho a dimensão que tem hoje, mais de uma década depois?

O tempo voa. Já passaram tipo catorze anos desde esses tempos e continuo sendo a mesma pessoa, com as mesmas convicções – Faro foi uma escola do punk hardcore para mim! Cada vez que oiço falar das histórias antigas do NYHC das ruas, associo logo a Faro, porque foi nesse ambiente nas ruas de Faro, de manhã à noite, em que vivi, absorvi e aprendi todos os valores e ideias por detrás da cena hardcore. Sim, era por vezes uma beca auto-destrutiva, muito álcool, muita anarquia mental e muita destruição, mas acima de tudo havia um espírito de irmandade! Nunca gosto de mencionar a meu background como tempos que foram melhores do que agora, mas sim, gostava que as pessoas dessem valor a quem ainda está aqui de alma e coração, porque quando era miúdo no meu quarto só tinha uma cama, um guarda-fato e uma mesa de cabeceira. Jogos de computador, telemóveis, internet, Facebook... nada disso existia! Tinha um walkman da Sony que vivia anexado ao meu corpo onde cassetes mal gravadas (em que se ouviam as músicas que tinham sido gravadas antes quando passava de uma música para a outra) fluíam pela minha mente vinte e quatro horas por dia. Chegava a esperar um mês por cassetes que me gravavam com punk hardcore e que me chegavam pelo correio – era a maior felicidade do mundo!

Se houvesse concertos com duas bandas locais na minha cidade nem dormia na noite anterior! Nesse tempo em Faro tive uma granda escola! Tive, tenho e terei sempre a sorte de o meu vizinho e amigo de infância ser o Pedro Bica de Kontrattack (banda que formámos nos princípios de 1999) que é uma enciclopédia viva de punk hardcore em Portugal! Mas Faro era escola, muita escola. Lembro-me que ouvi vezes sem conta, todos os dias durante mais de um mês sem parar uma cassete muita chunga com os Ratos de Porão ao vivo! Faro tinha mil bandas boas: Nestrum, Xunga Core, Porks, Punk-Kecas. Estamos a falar de princípios dos anos noventa! Punk-Kecas fazia uma cover de Olho Seco, a “Nada”, mas cantavam “Não se pode andar mais nas ruas de Faro!” em vez de São Paulo! Eram tempos dourados, em que a comunicação fazia-se pessoalmente, escreviam-se cartas, trocava-se som por correio e era uma grande irmandade.

Eu sei que costumavas vir a Lisboa ver concertos, que idade tinhas nessa altura? Suponho que cada viagem fosse uma aventura digna desse nome e acredito que pensar nisso te traga boas memórias. Notavas que havia uma maior distância entre a cena de Lisboa e o resto do país?

Man, ya, mega aventuras! Não ia propriamente a Lisboa, das primeiras vezes que fui a Lisboa foi mais para ir para Linda-a-Velha! Na altura, em 94/96, o Blitz anunciava todos os concertos de hardcore que aconteciam na Academia de Linda-a-Velha, então o ritual era passar fome durante a semana, poupar a guita que o meu pai me dava para comer na escola e dar uma granda tanga ao meu pai e ir de autocarro para Lisboa! Nessa altura a estação era no Arco do Cego, mas na antiga estação mega chunga, para quem se lembra! Depois como tinha tempo ia a pé até ao Marquês de Pombal e apanhava o autocarro para Linda-a-Velha. A Academia não era muito longe de onde parava. Os concertos acabavam sempre antes da meia-noite, então mal acabava apanhava um táxi muito rápido, a tempo de conseguir apanhar o autocarro da uma da manhã para Faro e chegar às seis e meia da manhã (era o autocarro que parava em todos os sítios e vinha sempre cheio de chungaria).

A cena em Faro nesse tempo era super parecida com a cena de Linda-a-Velha, tanto que existiu sempre uma irmandade enorme entre o pessoal de Linda-a-Velha e o de Faro. Por exemplo, lembro-me de ver Trinta & Um em Faro ainda com dois vocalistas e Metralhas e Punk-Kecas também tocaram em Linda-a-Velha e uma vez no Hardcore Café na 24 de Julho! Eram cenas hardcore bué parecidas, Faro era totalmente trips, bongos, álcool, siga a marinha! Vi bandas brutais em Linda-a-Velha, desde Trinta & Um, Metralhas, Ás de Chapadas, Braço de Ferro e vi um concerto de X-Acto na Academia que foi um dos melhores de sempre: não havia muitos straightedge na sala, mas estava toda a gente a curtir – o pit estava violentíssimo, stage diving mesmo do maluco –, o Rodrigo bem avisou várias vezes para o pessoal não enlouquecer mas foi impossível, estávamos em Linda-a-Velha e aquele pit era demoníaco –parecia que estava em Faro, onde o pessoal fazia stage dives do primeiro do Tal Bar nos concertos de Punk Kecas. Impossível não haver sangue, nódoas negras e pessoal todo aleijado no dia seguinte! No último instante desse concerto de X-Acto, um maluco fez um dive de cabeça pró chão, resultado: sangue por todos os lados. WILD!

Mas sim, voltando ao tópico, não existia internet como hoje em dia e obviamente a cena hardcore na zona de Lisboa era mais “organizada”, tinham mais acesso às coisas, mas tipo imagina... Faro era uma mistura entre a cena da MSHC e Linda-a-Velha! Loures também tinha uma cena hardcore distinta no tempo da SPOC e também tinham uma boa relação com a cena de Faro, com amizade entre o pessoal dos Punk-Kecas e o pessoal de Omited Grass Reaction. A cena era mais centralizada em Lisboa, mas logo de seguida tinhas o Algarve, Faro e Loulé principalmente. Sempre foi assim. Também sempre houve hardcore no Porto, mas só começou a ficar maior a partir do princípio dos anos 2000. Lisboa era mais central e era onde acontecia tudo! Sei lá, histórias assim mais brutais para mim foi quando fui ver GBH no Cais do Sodré em 1996, com os punks de Faro e mais algum pessoal do hardcore. Foi brutal, man! Mas a melhor recordação foi o concerto de Madball no Paradise Garage em 1999 onde foram na boa uns trinta manos do Algarve e o pessoal de Faro na maior destruição! Primeiro foi um arraial de banhadas no Pingo Doce lá ao pé, com os seguranças a verem e a não fazerem nada, depois foi a surrealidade de um bacano de Faro ter conseguido a proeza de entrar no Paradise Garage com uma garrafa de Jack Daniels! De salientar que dentro da garrafa, já sem tampa ou que raio fizeram, misturam uns ácidos e toda a gente que bebeu daquilo tava maluca!

Lembro-me do Matos ter tocado com Omited Grass Reaction! Trinta & Um estava no cartaz mas não tocaram por causa de uns estrilhos. No fim da noite houve um arraial de porrada à porta do Paradise entre pessoal de Linda-a-Velha e da Margem Sul. MEGA WILD! Outra memória foi o concerto de Agnostic Front no Paradise Garage. O Roger Miret tocou com uma t-shirt preta a dizer MSHC. Deu estrilho! No final do concerto, mais um arraial de porrada – a história do costume! Por fim, outro concerto memorável para mim: toquei com Kontrattack em Beja, num sábado, e no dia seguinte apanhei o comboio para Lisboa e fui ver Skarhead na Jukebox, matiné de domingo! Tocou Omited Grass Reaction e Last Hope! Fui com a minha hoodie straightedge do Drinking Sucks e o Vilela da Margem Sul, que estava à porta, com um garrafão de cinco litros de vinho, viu-me a entrar e disse: Ó PUTO, SÓ POR TERES TIDO CORAGEM DE VIR PARA ESTE CONCERTO SOZINHO, COM ESSA SWEAT, DEIXO TE ENTRAR À PALA! Foi granda concerto! O Raykar de Day Of The Dead e o Perez de Shift estavam lá! Respect! É preciso dizer o que é que aconteceu no final do concerto?


Quando (e como) é que o straightedge apareceu na tua vida e o que é que te levou a adoptá-lo? Na altura dessas idas a Lisboa já eras straightedge ou aproveitavas também um bocado para ir para a maluqueira?

Eu tenho um background uma beca auto-destrutivo. No tempo das “trips, bongos, álcool, siga a marinha” eu era igual. Nas histórias que contei antes ainda não era straightedge, à excepção do concerto de Skarhead. Era uma maluquice gigante, nada importava – era a destruição total! A primeira vez que ouvi falar de straightedge foi através de uma revista de metal que o irmão do Bica comprava, a Terrorizer. O Bica mais velho já tem mais de quarenta anos agora e fez parte da primeira geração do hardcore de Faro. Nessa altura (meados dos anos 90), as bandas do NYHC venderam-se uma beca à cena metal mainstream e começaram a aparecer em editoras grandes tipo Century Media, começando também a aparecer entrevistas em revistas mainstream do metal tipo Terrorizer. Ainda me lembro duma entrevista a Agnostic Front que tinha o Craig Setari (Straight Ahead, Sick Of It All) na foto da banda! Nessa entrevista eles falaram de muitas bandas de Nova Iorque, incluindo Youth Of Today, que referiram como sendo “a” banda straightedge de Nova Iorque. Nessa altura pessoal de Faro tinha cassetes aqui e ali com 7 Seconds, Uniform Choice, Up Front, Minor Threat, Gorilla Biscuits e Youth Of Today. Lembro-me que o Sonecas de Punk-Kecas tinha aquele CD antigo da Lost & Found, com Youth Of Today ao vivo. Então o meu primeiro contacto que tive hardcore straightedge acabou por ser com Youth Of Today.

Mas entretanto, ao longo dos tempos, mesmo antes de ser straightedge, fui conhecendo mais através, principalmente, dos Gorilla Biscuits, dos Youth Of Today e, obviamente, dos X-Acto, que vi algumas vezes antes de ser straightedge. Vi-os em Lisboa e na primeira vez que tocaram no Algarve, em 1996, no Bafo de Baco, salvo erro. O Raykar e o Pernas ajudaram a organizar através dos irmãos Pardais de Quarteira, que conheciam o pessoal de X-Acto. Nesses tempos eu estava uma beca perdido na vida, chumbei dois anos por faltas até que fui parar à turma do David, do Boto e do Diogo (que viriam a fazer parte dos Pointing Finger). Nesse ano eu estava no meu auge de mamadice. Para complementar, na mesma turma estava o Pedro Laranjeira, guitarrista de Punk-Kecas, ainda em altas do Verão que tinha acabado de passar e o Ruben, vocalista de Highest Cost, que começou a fumar ganzas comigo numa visita de estudo a Évora. Aliás, ele nem fumou logo uma ganza, nessa altura eu nem fumava ganzas porque não dava pica nenhuma, só bongos com quebras gigantes e o Ruben a primeira vez que lhe entrou THC no corpo foi logo com um bongo potentíssimo! Vi logo ali que ele tinha potencial, haha!

Bom, então tinha conhecido esses putos que curtiam de NoFX e Bad Religion e essas bandas da Epitaph e da Fat Wreck. Eu dessas bandas só gostava de NoFX, e muito! Nunca gostei de Bad Religion, Pennywise, Lagwagon e essas bandas todas que eram gigantes nos anos 90. Entretanto fui me dando mais com o David, que sempre se mostrou interessado em saber mais sobre punk e hardcore. O Diogo e o Boto igual, mas o David era mais activo. Na altura tanto o David como o Diogo não bebiam nem fumavam, só o Boto é que apanhava umas bezanas de vez em quando. Então depois de me aperceber que estes putos eram mais tranquilos falei-lhes sobre o straightedge um monte de vezes e eles foram conhecendo mais e mais e mais e mostrando-se mais interessados. Eu, apesar de não ser ainda straightedge estava super feliz que eles tivessem interessados na cena – mesmo antes de ser straightedge, sempre achei que o straightedge era a cena mais correcta e lógica que existia na comunidade punk hardcore. Fazia sentido para mim, mas não estava a conseguir deixar a vida que tinha. Muitos dias dava o toque da entreada para primeira aula da manhã e eu já tinha fumado um canhão sozinho nas escadas do Liceu.

Entretanto cheguei a uma altura da minha vida em que não estava a ter rumo nenhum e cada vez mais me estava a despertar interesse a cena toda em redor do straightedge, de viver alerta de mente sã e corpo são. Fazia sentido para mim porque eu sempre tive uma abordagem político-social através de todo o meu background punk hardcore. No princípio e meio dos anos 90 todas as bandas em Portugal, e da cena punk hardcore no geral eram assim político-social, mas não era forçadamente, a cena era mesmo assim. Não se perdia tempo a escrever letras a falar de amizades, desgostos amorosos, da vida e isso tudo – nesse tempo eram sempre letras anti-governo, sei lá. Tal como hoje, havia muita merda a acontecer, mas as pessoas pareciam ser mais conscientes e preocupadas com o mundo à volta delas. Hoje em dia, infelizmente, as pessoas vivem anestesiadas porque os grandes governos e as grandes empresas criaram formas de manter o povo entretido.

Para mim o straightedge é muito mais do que não beber e não fumar. É sobre estar consciente e alerta sobre o mundo à minha volta e eu uso o straightedge como arma para combater toda a alienação que se quer apoderar de mim e acreditem, drogas, cigarros e álcool é mau (para mim) mas o Facebook e tudo o que internet e a televisão fazem à mente das pessoas é mil vezes pior. Criam-se falsas ilusões da vida através das redes sociais e deixam as pessoas viciadas em coisas fúteis e eu uso o straightedge como forma de me tentar abstrair o máximo possível de toda esta alienação e viver alerta em relação ao que se passa à minha volta! Mente sã, corpo são! Consciente e alerta! Straightedge!


Suponho que a ideia de formar os Pointing Finger tenha surgido pouco depois de adoptares o straightedge? Como foram os primeiros tempos da banda, que tipo de dificuldades encontraram por ser uma banda straightedge e que tipo de aceitacao tiveram?

Sim, Pointing Finger foi uma ideia que já tinha surgido mesmo antes de eu ser straightedge! Posso-te dizer, e acho que muito pouca gente sabe disto, que o Vairinhos que era de Day Of The Dead chegou a ensaiar nos primeiros ensaios de sempre do que veio a ser Pointing Finger. Primeira banda straightedge de Faro... claro que ficámos naquela, mas tivemos sempre apoio da velha guarda de Faro. O nosso primeiro concerto foi épico! Um cartaz de luxo: Punk-Kecas, Kontrattack, Revenge (Quarteira) e Time X. Foi brutal! Ainda demos uns concertos em Faro assim meio com pessoal a gozar e mandar bocas, mas era mais no gozo, porque Faro sempre foi uma irmandade!

Eu acho que a aceitação foi bué boa e sempre foi engraçado! Sempre fomos mais bem recebidos e sempre deram mais valor à banda em Lisboa do que no Algarve e sempre tivemos mais aceitação na Europa do que em Portugal. Descobrimos também que somos idolatrados no sudoeste asiático sem nunca lá ter ido! Tive recentemente na Tailândia, Malásia, Singapura e Filipinas e os putos todos assim bué sem jeito ao pé de mim porque era “o gajo dos Pointing Finger”. Parecia que era o Ian MacKaye, ahah! Até descobrimos que havia bandas na Indonésia que faziam covers de Pointing Finger! Lindo! Bem, depois de Punk-Kecas, que teve muita aceitação na cena de Linda-a-Velha nos 90, Kontrattack e Pointing Finger foram as bandas que tiveram mais impacto na cena hardcore algarvia. Kontrattack tinha uma irmandade com o pessoal da Margem Sul e Pointing Finger com a cena toda no geral, tanto em Lisboa, como pelo país fora.

Só houve mesmo uma coisa que atrapalhou sempre o percurso da banda: Pointing Finger nunca foi uma banda assumidamente vegetariana ou vegan e para a maior parte da cena straightedge em Portugal isso não era bem aceite. Fora isso a banda sempre foi muito bem aceite, batalhámos muito para tudo correr bem e no geral foi sempre na boa. Nunca fomos uma banda daquelas polémicas, éramos uma banda de HARDCORE!

Quando os Pointing Finger acabaram, creio que fossem uma das bandas a tocar há mais tempo. Quanto tempo é que a banda durou? Do teu ponto de vista, quais são as maiores diferenças entre a cena portuguesa quando vocês começaram e quando acabaram?

Pointing Finger durou bastante tempo! Infelizmente, por razões profissionais, tive de sair da banda. Comecei a trabalhar no Departamento de Turismo do Resort de Vale do Lobo no Algarve e o meu horário envolvia trabalhar das quatro da tarde à meia-noite, especialmente quintas, sextas, sábados e domingos, o que se tornou impossível para eu dar concertos! O último concerto que toquei foi com Go It Alone em Faro, em 2006, e acabou em beleza, pois um dos meus bateristas e músicos favoritos – o Mark Palm, vocalista de Go It Alone nesse tempo, baterista de Get The Most – estava lá! No fim do set ele foi ter comigo e disse: “Dude, amazing drumming!”. E foi o fim. Depois tocou o Ludgero de Broken Distance (ainda straightedge), ainda fizeram uma tour (em que eu não fui) em 2006 e a banda acabou por morrer em Faro em 2007, num show com For The Glory, onde toquei a ultima musica: o eterno clássico intemporal “New Direction”, dos Gorilla Biscuits.

As maiores diferenças... hm... não sei bem explicar. Acho que a cena hardcore continua boa, mas antigamente existiam mais pessoas dedicadas a organizar outras coisas para além de concertos! A malta antes organizava uns pic-nics de convívio e era muito mais fixe do que ficar em casa a dizer merda no Facebook uma tarde inteira. Lembro-me que havia debates sobre vários assuntos. Cheguei a ir a alguns na casa ocupada e era lindo, todos falavam! Lembro-me por exemplo no Fluff Fest, de manhã haver conversas e debates sobre vários assuntos e eu curtia bué disso, porque hardcore para mim não é só mosh e merch! Lembro-me de nesse tempo existirem mil fanzines (ainda que cada uma fosse pior que a outra). A malta escrevia e dizia o que tinha a dizer e todos comunicávamos uns com os outros nos concertos. Eu acho que a cena continua boa, mas há mais passividade hoje em dia. Antigamente as pessoas tinham muito mais orgulho naquilo que defendiam. Hoje em dia parece que é mais importante ir para uma festa na piscina, fazer uma churrascada, tirar fotos e meter no Instagram e no Facebook da festa super nice com os melhores amigos do mundo do que organizar algo mais construtivo para o mundo à nossa volta. Só isso.

Ok, a última pergunta! Não te vou roubar mais tempo...! O hardcore continua a significar o mesmo para ti nos dias que correm? Tem tanta importância hoje como tinha quando começaste a fazer parte da cena, ou houve alguma coisa que mudou?

Nada mudou! Tudo aquilo que eu sou é aquilo que sempre fui mesmo, desde quando ainda não era straightedge! Uma das coisas que mais que irrita é quando um cromo desses do "antigamente" me vem com conversas inteligentes da superioridade e me diz: "Então Rafa, mas ainda és straightedge, ainda é vegetariano, ainda és isto e aquilo? Rafa, isso era fixe quando eramos putos, agora estamos mais velhos!"
Mete-me nojo essa conversa de merda. Não tenho nada contra quem mude, mas cuspir na sopa onde comeram, alguns deles eram super dedicados e interessados e de repente mudam e criticam o que foram antes... não entendo! Para mim hardcore é sinónimo de integridade. E sim, para mim tem a mesma importância do que antes, sem dúvida. Talvez até mais, porque com 31 anos, cada vez tenho mais a certeza que straightedge e vegetarianismo está certo e faz sentido!